Quase sempre voltada para documentários, a produção audiovisual xinguana vem sendo feita com abordagens e propósitos diversos, sempre com impacto tanto dentro das aldeias quanto fora delas.
Uma abordagem se refere à apropriação e ressignificação de imagens antigas, vídeos e fotos de povos indígenas realizadas por não indígenas, pessoas que vinham de fora e imprimiam seus olhares estereotipados e exotizantes sobre essas culturas. Feitos com o protagonismo indígena (no roteiro, direção, câmera e edição) e muitas vezes contando com o apoio de produção de entidades como o Vídeo nas Aldeias e o Instituto Caititu, a produção desses filmes envolve toda a comunidade, que assiste e comenta antigas gravações, às vezes reencenando histórias. É o caso do filme Pirinop – Meu primeiro contato (2007), dirigido por Mari Corrêa e Karané Ikpeng, que reconta o processo de transferência do povo Ikpeng para dentro da área demarcada do então denominado Parque Indígena do Xingu, e do filme Devolução Kaiabi (2022), onde a cineasta Kujãesage Kaiabi registra o retorno de imagens do cotidianos e de cantos e rezas de Prepori Kaiabi, um cacique e pajé já falecido que foi importante não apenas para o seu povo, mas para todos do território do Xingu.
Há também os vídeos dedicados ao registro de saberes e práticas tradicionais, como rituais, cantos, pajelanças, histórias e línguas. São formas de salvaguardar conhecimentos que são transmitidos pela oralidade dos anciãos aos mais jovens. Enquanto o material bruto é utilizado para estudo e entretenimento da própria comunidade, a versão editada se transforma em documentário para circular em festivais nacionais e internacionais, atuando como ferramenta de visibilização da cultura e de suas causas. Há casos como o filme As hiper mulheres (2011), dirigido por Carlos Fausto, Takumã Kuikuro e Leonardo Sette, cujo processo de realização incentivou a comunidade Kuikuro a resgatar um antigo ritual feminino, o Yamurikumã.
Drones com câmeras, para além de registrarem belas vistas aéreas da conformação espacial dos rituais, das aldeias e das matas de seu entorno, também são usadas por indígenas do Xingu como ferramenta de monitoramento do território, para o controle de invasões, desmatamentos e queimadas. Quando são detectadas irregularidades, estas imagens rapidamente chegam às redes sociais como forma de denúncia, além de serem anexadas a processos judiciais. Uma icônica foto de uma plantação de soja na divisa do território demarcado, realizada em 2020 por Kamikia Kisêdjê, circulou o mundo através da divulgação feita por ativistas do meio ambiente. Mas esta foto também foi um dos destaques da exposição Xingu: Contatos, realizada na sede paulista do Instituto Moreira Salles em 2022. Na produção audiovisual indígena, vemos a simultaneidade entre os atos poético e político.