“Antes, onde estava o refeitório, era perigoso. Agora, é um bairro totalmente tranquilo, porque a cultura combateu isso”
Frank Valdivia, mediador voluntário na Biblioteca Fitekantropus
A Fiteca é mais do que um evento que acontece durante uma semana no ano, seus impactos na comunidade se sentem durante o ano todo. Efetivamente, após a sua chegada, os índices de violência no bairro diminuíram drasticamente. A Fiteca proporcionou um espaço simbólico (e, posteriormente, físico) para a comunidade se unir, compartilhar desejos, projetar e construir junto.
Com grande afluência de público, o festival (que é uma organização sem fins lucrativos) gera renda direta para membros da comunidade através de redes de solidariedade organizadas de forma a identificar quais são os moradores com maior necessidade no momento e fornecer espaços de forma gratuita (a organização não cobra um aluguel) para que possam desenvolver suas atividades econômicas durante o evento, voltadas principalmente para a venda de alimentos ao público visitante.
O modelo participativo da organização da Fiteca fez surgir novas iniciativas de desenvolvimento local: a produção de vídeos para o festival criou o cinema comunitário infantil Somos Minka Audiovisual, o grupo que organiza as pinturas murais da Fiteca desenvolve o festival de mulheres grafiteiras Nosotras Estamos en la Calle e o grupo dedicado à cenografia se envolveu no Projeto Fitekantropus. Este último nasceu em 2007 com o intuito de alargar o âmbito da Fiteca para um projeto de desenvolvimento abrangente para todo o bairro. Trata-se de um projeto urbano estratégico que envolveu desenhos e construções participativos, intervenções arquitetônicas e urbanísticas no parque Tahuantinsuyo e seu entorno e a modernização física do refeitório San Martín del Once, localizado ao lado do parque, que foi transformado em um centro comunitário com cozinha, refeitório, áreas de estar, sala de usos múltiplos, biblioteca, sanitários e horta. A reforma do refeitório se viabilizou através de contribuições financeiras de parceiros internacionais, juntamente com o apoio de coletivos de arquitetura, empresas, residentes locais e organizações comunitárias, com especial destaque às mulheres que ali cozinham. Cada detalhe da construção carrega a lembrança de todo o esforço, a confiança e a solidariedade que há por trás de sua história. A reforma do refeitório foi a ação mais bem sucedida do projeto e melhorou significativamente a coesão social da comunidade.
Na medida em que o festival se apropria da cidade, as ruas viram palco das apresentações e a qualidade dos espaços públicos passa a ser um tema de atenção e discussão pela comunidade. Em 2009, impulsionada pela iniciativa de grupos culturais como La Gran Marcha de los Muñecones, ao qual se somaram diversos coletivos e o projeto Fitekantropus, a vizinhança passou a organizar os “Domingos comunitários”, onde ocorrem mutirões de recuperação do espaço público. Este tipo de ação gera o sentimento de pertencimento e responsabilidade da população com o local onde vive.
A prefeitura de Comas oficialmente reconheceu as atividades do projeto Fitekantropus, renomeando os assentamentos informais de La Balanza como “Bairros Culturais”. O projeto recebeu cobertura positiva da mídia e reconhecimento acadêmico, sendo considerado um modelo para o desenvolvimento urbano colaborativo. Em 2016, recebeu o City to City Barcelona FAD Award e ficou em 2º lugar no CAF Prize for Urban Development and Social Inclusion.